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Como a Bíblia chegou ao Brasil

Dos primeiros exemplares impressos na Holanda, até o início da produção nacional, pela Imprensa Bíblica Brasileira, foram quase 250 anos

8 DE maio DE 2017

O leitor brasileiro que abre sua Bíblia hoje dificilmente se lembra de que a Palavra de Deus só chegou ao país após um longo e difícil processo. Ao longo dos últimos séculos, as Sagradas Escrituras encontraram muita dificuldade para se fixar no Brasil – foram barreiras políticas, comerciais, uma boa dose de intolerância religiosa e até mesmo uma guerra, que só foram superadas graças ao esforço e às iniciativas de pessoas tementes a Deus e grupos cristãos que entenderam a necessidade de oferecer ao povo brasileiro os mais preciosos textos que a humanidade já produziu.

E logo nas primeiras páginas da maioria das Bíblias disponíveis no país, o nome de uma dessas pessoas nem sempre chama a atenção, entre outras informações como os créditos da publicadora e a data da edição. Embora não seja nenhum personagem bíblico, João Ferreira de Almeida, pastor reformado de nacionalidade portuguesa que viveu no século 17, tem uma importância enorme para a fé dos povos lusófonos. Foi ele que, entre os anos de 1644 e 1691, dedicou quase meio século de sua vida ao trabalho de tradução das Sagradas Escrituras para a língua lusitana.

Passados 350 anos, milhões de cristãos brasileiros têm em suas mãos a genuína Palavra de Deus em sua língua, com toda a riqueza de estilos das diversas transformações feitas ao longo dos tempos, graças a Deus, é claro – mas também a Almeida. Parafraseando o primeiro-ministro britânico na época da II Guerra Mundial, Winston Churchill, dá até para dizer que nunca tantos deveram tanto a tão poucos.

Pois foi a partir do trabalho realizado em condições precárias, num tempo no qual a linguística ainda não existia como ciência e, ainda por cima, realizado contextos de perseguição à fé reformada, que o ministro português construiu seu precioso legado. Hoje, consolidada no país com mais de 40 milhões de fiéis, a Igreja Evangélica brasileira tem à disposição uma infinidade de modelos de Bíblias. São exemplares de estudo, Bíblias temáticas, versões para crianças e outras faixas etárias e, mais recentemente, os mais diversos modelos digitais, tanto para computador como para mídias móveis, trazendo à leitura das Sagradas Escrituras uma facilidade e acessibilidade inimaginável nos tempos dos manuscritos. Mas levou muito tempo para que o livro da fé cristã chegasse ao país.

Na época de Almeida, o Brasil era nada mais que uma colônia portuguesa, fornecedora de matéria-prima – como madeiras, minérios e metais preciosos – para a Metrópole. Por aqui, nem sinal de protestantes. As duas únicas exceções datam de curtos períodos na infância do país. A primeira delas, na década de 1550, quando os huguenotes comandados pelo fidalgo Nicolas de Villegaignon estabeleceram um enclave no Rio de Janeiro chamado França Antártica. Debelada pelos portugueses em 1560, a colônia gaulesa tinha orientação protestante e dispunha de alguns exemplares da Bíblia, provavelmente da edição francesa de 1478.

No século seguinte, holandeses invadiram o Nordeste, dando início àquela que foi uma verdadeira nação reformada dentro do Brasil. A chamada Nova Holanda, que durou de 1630 a 1654, chegou a estabelecer 22 igrejas reformadas na região. Bem organizadas, as congregações contavam com cultos também em inglês e francês – para mercadores e colonos de passagem – e uma boa estrutura eclesiástica. “As igrejas foram servidas por mais de 50 pastores, além de pregadores auxiliares e outros oficiais. Havia também professores de escolas paroquiais”, explica o professor, historiador e pastor presbiteriano Alderi de Souza Matos. Consta nos registros da Nova Holanda que Maurício de Nassau, que governou a colônia em seu período de maior apogeu, chegou a encomendar 20 “bíblias grandes”. Havia até projetos de tradução dos textos bíblicos para o tupi. Inimigos dos portugueses, os líderes da Nova Holanda preferiam investir na versão da Bíblia para a língua falada pelos indígenas. A ideia só não prosperou porque a Coroa portuguesa, após lutas sangrentas como a batalha dos Guararapes, em 19 de abril de 1648, conseguiu retomar o território, expulsando os europeus.

Milhões de exemplares

As primeiras porções das Escrituras em português de que se tem notícia no Brasil datam de 1712 – cerca de 150 exemplares do evangelho de Mateus, impressos em Amsterdã por ordem da Companhia das Índias Orientais, o braço colonial da Holanda na Ásia. Eram traduções feitas por Almeida meio século antes e que, após longo atraso devido a revisões e entraves burocráticos, finalmente foram impressas. O destino desse material era a colônia de Goa, na Índia – tomada pelos flamengos dos portugueses –, mas a expedição que o conduzia foi atacada por corsários franceses no Atlântico e acabou arribando no Brasil.

O que há de fato e de romance nessas histórias não se sabe ao certo. O que existe de concreto é que, no período colonial, as relações políticas e econômicas da Coroa portuguesa foram decisivas no processo da chegada das Sagradas Escrituras em terras brasileiras.
Desde a ocupação flamenga no Nordeste até o período de intensa influência britânica, intensificada a partir de 1808, com a chegada da Família Real ao país – sob a proteção inglesa –, foram poucas as oportunidades para os brasileiros conheceram a Palavra de Deus em seu idioma.

O estabelecimento do Brasil como Reino Unido ao de Portugal e Algarve, sob reinado de D. João VI, começou a mudar as coisas. Capital da colônia e mais tarde do Império, o Rio de Janeiro concentrava o que havia de mais avançado em termos sociais e políticos. Por isso mesmo, a cidade atraía muitos estrangeiros, sobretudo britânicos, que obtiveram permissão da Coroa lusitana para realizar cultos anglicanos.

Com a abertura comercial da colônia, processo imposto pela Coroa inglesa, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (BBS, na sigla em inglês), entidade de forte viés missionário, animou-se a imprimir as Escrituras em português. Já em 1809, a instituição produziu 12 mil exemplares do Novo Testamento, na versão de Almeida de 1773.

Como aquela primeira edição esgotou-se rapidamente, mais 7 mil exemplares seriam impressos dois anos depois. A primeira Bíblia completa em português seria impressa em 1819. Produzida em um único volume, contendo o Antigo e o Novo Testamento – um luxo para a época –, essa edição teve custo mais em conta e a maior parte de sua tiragem foi destinada ao Brasil. O restante foi enviado para as colônias lusófonas na África e na Ásia.

Foi só mais tarde, com a entrada do país à rota missionária mundial, que a Palavra de Deus entrou definitivamente às terras nacionais. Pesou nesse processo a contribuição decisiva das sociedades bíblicas Britânica e Americana, esta última fundada em 1816. A chegada de evangelistas estrangeiros que fixaram residência e iniciaram grandes denominações protestantes no Brasil, como a Metodista, a Presbiteriana e a Batista, aumentou a procura por exemplares das Escrituras.

De olho no filão espiritual, as instituições bíblicas estrangeiras, de orientação protestante, aumentavam a produção e investiam em novas versões para o português. Os livros foram logo espalhados e alguns exemplares chegaram a ser desmembrados, para dar a mais cristãos a oportunidade de conhecer os textos bíblicos. Até mesmo os católicos utilizavam essas edições protestantes, já que a Igreja Romana não estimulava a leitura das Escrituras por seus fiéis.

Registros da época dão conta de que a Sociedade Bíblica Americana (ABS) enviou diversas remessas, sob a custódia dos capitães de navios mercantes. As bíblias eram entregues em consignação aos comerciantes estabelecidos nas principais cidades do Império do Brasil. Um comunicado da ABS, datado de 1826, define assim a crescente procura: “Os povos que vivem no sul do continente americano estão preparados para receber não centenas de milhares das Escrituras, mas milhões de exemplares.”

Predominaram no período as edições Almeida Revista e Emendada e a Revista e Reformada, na verdade aperfeiçoamento dos textos até então disponíveis, com maior apuro na correção vernacular e na reorganização de muitos versículos, colocados em ordem mais direta. O trabalho de adaptação dos textos era patrocinado pelas sociedades bíblicas, interessadas em tornar o texto mais acessível aos leitores brasileiros, em sua maioria de baixa instrução.

Com a presença de cada vez mais missionários protestantes no país, a Sociedade Bíblica Britânica resolveu se estabelecer no Rio de Janeiro, então capital do Império, em 1856.

Vinte anos depois, chega à mesma cidade a Sociedade Americana. Pelos anos seguintes, coube a essas duas entidades a missão de distribuir a Palavra de Deus em uma nação ainda essencialmente católica. Uma nova versão, a Almeida Revista e Correcta, começou a circular em 1875, com o texto mais cuidadosamente revisado até então. Esta edição, juntamente com a Revista (1894), foi uma das bases para a produção da versão Almeida Revista e Corrigida (RC), lançada em 1898 pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira.

Pela primeira vez, o trabalho contou com a participação de estudiosos brasileiros, o que confere ao texto uma enorme aceitação pelo leitor nacional – a “Bíblia Corrigida”, como passou a ser conhecida, foi adotada pelas denominações pentecostais surgidas na primeira década do século 20, como a Congregação Cristã no Brasil e a Assembleia de Deus, e até hoje é a sua versão favorita das Sagradas Escrituras.

Uma guerra no caminho

Com o advento da República brasileira, em 1889, e o fim do status do catolicismo como religião oficial do país, as sociedades bíblicas Britânica, Americana e Trinitariana expandiram a produção e distribuição de bíblias em português. A primeira década do século 20 viu nascer um avivamento espiritual nos trópicos, a exemplo do que já ocorria nos Estados Unidos.

Grandes igrejas de teologia pentecostal surgiram no país, como a Assembleia de Deus, fundada no Pará por missionários suecos oriundos dos EUA, e a Congregação Cristã no Brasil, implantada no Paraná pelo missionário ítalo-americano Louis Francescon. Com bases populares, essas denominações logo assumiram uma “cara” genuinamente nacional. Sua vibrante pregação pentecostal enfatizava a necessidade do cristão viver em santidade e de acordo com a vontade de Deus, e o que poderia ser melhor para isso do que o conhecimento das Escrituras? Com isso, a demanda por novas bíblias não parava de crescer, movimentando as gráficas nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Trazidas de navio para o porto de Santos e do Rio de Janeiro, as cargas eram rapidamente distribuídas. Além das lojas de comércio, as bíblias eram vendidas de porta em porta pelos colportores, que se encarregavam de espalhar exemplares da Palavra de Deus nos rincões do interior.

Contudo, um fato novo – e decisivo – logo impulsionaria a produção nacional. A eclosão da II Guerra Mundial, em 1939, provocou profundas mudanças em todo o mundo. Uma delas foi a inviabilização das rotas comerciais pelo Atlântico, a partir de 1940.

Com os mares infestados por navios de guerra e submarinos alemães, as remessas de bíblias para o Brasil foram interrompidas. Por outro lado, o Reino Unido, envolvido no conflito desde os seus primeiros dias, mobilizou sua cadeia industrial para o esforço de guerra contra os nazistas. Já os EUA, inicialmente afastados do front, foram arrastados para a guerra contra o Eixo a partir de 1941, com o ataque japonês ao Havaí.

A necessidade de se começar a produzir bíblias no Brasil já havia ficado clara. A procura era muito maior do que os estoques disponíveis. Em 1930, o diretor da ABS, Hugh Clarence Tucker, já sinalizava a necessidade premente de se iniciar a impressão das Escrituras no Brasil. Já àquela altura, havia um esforço unido neste sentido. A Casa Publicadora Batista se ofereceu para imprimir os livros, caso recebesse dos EUA as chapas prontas. Contudo, nada foi encaminhado neste sentido.

Na assembleia anual da Missão Batista do Sul do Brasil, em junho de 1940, decidiu-se pela criação da Imprensa Bíblica Brasileira, entidade cujo objetivo era imprimir e distribuir a Bíblia Sagrada no país. Quatro anos depois, os primeiros exemplares das Escrituras “made in Brazil” chegavam ao mercado nacional. Encadernada com as duas partes da Palavra de Deus, esses volumes tinham duas versões: uma popular, pelo preço de 10 cruzeiros (o equivalente, naquele tempo, a cerca de 60 centavos de dólar), e outra mais elaborada, com capa de couro, ao custo de 50 cruzeiros. Com a impossibilidade de acesso a matérias-primas importadas, as primeiras impressões da Bíblia no Brasil utilizavam papel produzido pela mesma indústria que distribuía papel para cigarros, a Fábrica Piraí.

Hoje, o Brasil é celebrado como o maior produtor mundial da Bíblia Sagrada. Todos os anos, saem das gráficas das editoras nacionais cerca de 8 milhões de exemplares completos das Sagradas Escrituras. Com tecnologia moderna, esse mercado cresce sem parar e já movimenta, todos os anos, bilhões de reais. As editoras evangélicas, responsáveis por cerca de 70% da distribuição, têm se empenhado em oferecer ao público edições cada vez mais caprichadas.

As bíblias modernas trazem comentários, estudos, mapas, diagramas, índices remissivos e inúmeros outros recursos que tornam a leitura da Palavra de Deus um prazer para os olhos e o espírito. E pensar que tudo começou com um pastor debruçado décadas a fio sobre sua escrivaninha, à luz de velas, movido unicamente pela certeza de que, se a fé vem pelo ouvir, era preciso que a Palavra de Deus pudesse ser lida na bela língua de Camões…

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