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Entre reis, nobres e plebeus

Nos séculos anteriores à reforma, um movimento de insatisfação com os rumos da igreja sacudiu a europa

29 DE Janeiro DE 2018

POR ELDO FERREIRA DOS SANTOS

A Reforma protestante não foi um produto das insatisfações de Martinho Lutero com a Igreja, embora seja ele, sem dúvida, o grande nome do movimento. Ela está ligada a fatores que envolvem fé, política, comércio e poder. Muito antes do monge alemão, o desejo de uma mudança nas estruturas da Igreja já estava ardendo em vários lugares da Europa. Na Espanha, a sua grande mentora foi Isabel de Castela, a Católica” (1451-1504). Na Inglaterra, João Wycliff (1328-1384); e, na Boêmia – parte do que hoje é a República Tcheca –, o mentor das transformações foi o reformador João Huss (1373-1415).

Antes de qualquer referência aos reformadores, contudo, é necessário falar sobre um fator preponderante que fez possível o conhecimento das ideias e questionamentos de movimentos reformadores pela Europa que iria, mais tarde, influenciar os rumos da Reforma. Não se trata de um homem ou ideologia, mas de uma invenção. No século 15, o alemão Johann Gutenberg (1398-1468) desenvolveu a tipografia, o que tornou possível a impressão de livros e, consequentemente, da Bíblia, o que tornou o livro sagrado do Cristianismo acessível aos fiéis e permitiu o surgimento de novas interpretações dos seus textos. Isso permitiu aos cristãos que fizeram o palco da Reforma depender menos das interpretações dos padres e questionarem mais a conduta dos clérigos.

É possível dizer que os fatos e circunstâncias que desencadeariam a Reforma Protestante aconteceram em vários pontos do Velho Mundo, como que preparando-o para o que estava por vir. Na Espanha, devido às incertezas políticas, o alto clero fazia sua própria regra de conduta e se envolvia na política com o fim de enriquecimento e fortalecimento político, desprezando seus rebanhos. Com a cúpula religiosa preocupada com poder político e engordando seus cofres, o baixo clero também não prestava um bom serviço sacerdotal. Nesse caso, faltava-lhes conhecimento e preparo para o serviço, pois a maioria era ignorante e se restringia à mera repetição da missa em latim, sem entender uma palavra sequer do que era ministrado aos fiéis. Some-se a isso a miserabilidade em que viviam, pois o que entrava na Igreja era recolhido pelos superiores. Envolvidos pela pobreza, os sacerdotes abandonavam os trabalhos pastorais, deixando seus rebanhos à própria sorte espiritual e tentavam sobreviver. Semelhante caos religioso se agravava com as disputas de poder político, com a população que não conhecia as doutrinas da própria fé e a presença constante dos filhos bastardos dos bispos que, no meio da nobreza, reclamavam abertamente por sua herdade.

Na Espanha, Isabel é a rainha que força de todas as formas uma reforma, a fim de que a Igreja voltasse aos seus princípios. No entanto, é a Inquisição que vai prevalecer como forma de preservação da religião e da unidade política. Isabel, então rainha de Castela, casa-se com Fernando, monarca de Aragão, unindo o território que resultou na Espanha. Era necessário, a partir dali, que o território permanecesse unido politicamente – e a fé foi o viés dessa união. Tendo a autorização do papa para a implantação da Inquisição na nação que estava nascendo, os mouros, de quem consideráveis terras foram conquistadas, eram obrigados a se converter ou a sair do país, e o mesmo acontecia aos judeus. Dessa forma, a religião deixou de ser uma experiência mística, passando a ser uma necessidade para a sobrevivência; de modo análogo, a fé já não era a crença no poder divino, mas na ação menos imparcial da Igreja em sua prática violenta. O Estado, ao perceber que o abuso da força usada pela Inquisição trazia enorme lucro nas desapropriações das terras e impostos pela retratação daqueles que eram considerados hereges, usa do mesmo artifício quando toma das mãos da Igreja as rédeas do movimento inquisitório por consentimento papal.

Entre os anos de 1309 a 1377, o papa tinha como residência a cidade de Avignon, na França. Tal fato se deu por imposição do rei francês, que transferiu a sede papal para seus domínios. Apesar de o centro da Igreja voltar a Roma no fim desse período, a disputa pelo poder vai promover a escolha de mais de um papa que dividiu a fé e a política na Europa, o que ficou conhecido como Grande Cisma do Ocidente. Em guerra com a França, a Inglaterra não via com bons olhos enviar os altos impostos papais para território do inimigo. E é na classe média que a reação tem maior impacto, fazendo surgir um espírito nacionalista que alcançaria outros estratos sociais. O resultado foi a cessação dos tributos anuais enviados ao papa por ordem do Parlamento. Uma ruptura estava a caminho. Esses fatos, somados à imoralidade e corrupção praticadas pela Igreja, trouxe descrédito à vida religiosa e a relação com o Estado inglês se agrava, principalmente por causa da classe nobre, que via na posse das terras pela Igreja um entrave ao crescimento dos seus interesses econômicos e sociais. Por outro lado, aqueles que mantinham firmes a sua fé na Igreja desejavam, urgentemente, uma Reforma.

Nesse contexto, surge a voz de John Wycliff pregando contra a imoralidade dos clérigos e reivindicando a tomada de suas propriedades. O que acontecia na Inglaterra nesse período não foge à realidade da Igreja em toda Europa: os religiosos não cumpriam suas funções e viviam a vida que desejavam com o dinheiro que era produto dos impostos arrecadados pela Igreja. Em certo sentido, a nobreza esclarecida tinha um relacionamento político com os clérigos; os interesses envolviam mais assuntos econômicos do que temas ligados à fé, enquanto os menos favorecidos eram encabrestados pelo temor do inferno ao desobedecer a Igreja. Mas o desejo de reforma de Wycliff não se reduziu à pregação contra os desmandos sacerdotais, atacando diretamente a autoridade papal quando, em 1382, escreveu uma obra onde deixava claro que “Cristo, e não o papa, era o cabeça – chefe – da Igreja”. Afirmou ainda que a Igreja Romana estava longe do modelo de Igreja que apresenta o Novo Testamento. Sua ênfase era clara: era àquele modelo que a cristandade deveria se adequar.

Como se tanto desafio fosse pouco, Wycliff também afirmou que a Bíblia, e não a Igreja, era a única autoridade sobre a vida do cristão. Por essa crença, em 1382, ele traduziu o Novo Testamento para o inglês e permitiu que o povo tivesse a Bíblia em sua própria língua. Dois anos mais tarde, Nicolau de Hereford completou a tradução do Antigo Testamento. Enfim, o povo inglês passa a ter um contato direto com as Sagradas Escrituras, o que se tornou um desafio para a Igreja na Inglaterra, que teve sua conduta mais questionada que em tempos anteriores. Os nobres, esperando se apoderar das terras que eram da Igreja, protegeram e deram todo apoio a John Wycliff, principalmente quando a Igreja o perseguiu. Antes de morrer, o reformista teve suas doutrinas propagadas entre o povo pelo movimento de um grupo de pregadores leigos, que foram denominados de “lolardos”, termo derivado de uma palavra holandesa que significa “murmuradores”. Fato é que o movimento iniciado por Wycliff sobrevive à sua morte, em 1384. Poucos anos depois, Roma persegue duramente os que insistiam em pregar suas ideias. Desaparecem os lolardos, mas não as doutrinas de Wycliff, pois parte importante do povo já exigia do clero uma postura mais próxima do que a Bíblia ensinava e condenava sua postura política e imoral.

SIMONIA E IMORALIDADE

Não tão distante da Inglaterra, surgia, na Boêmia um movimento reformista encabeçado por João Huss. Ali, os mesmos motivos impeliam um grupo cada vez maior de fiéis ao enfrentamento aberto à Igreja: a simonia (venda de cargos, perdão e sacramentos, entre outros, por dinheiro); a vida pomposa e imoral eclesiástica; o descaso do ministério sacerdotal; e a posse de terras que serviam para o prazer e a glória dos clérigos, desencadeando uma insatisfação com a Igreja e um forte desejo por mudanças. No caso da Boêmia, a exemplo da Inglaterra, surge também um sentimento nacionalista. Sendo governada por imperadores alemães, seu povo era sempre preterido em favor de uma minoria germânica.

Antes de Huss, o imperador alemão Carlos IV, que havia herdado o trono da Boêmia, percebendo que metade do território nacional estava nas mãos da Igreja, tentou limitar o poder clerical. Uma de suas iniciativas nesse sentido era o incentivo à ação dos pregadores reformistas. É claro que nem todos os monarcas que apoiaram uma reforma tinham motivos políticos, existiam aqueles que tinham por motivação a própria restauração de uma fé genuína. As pregações de Huss tinham o mesmo teor das mensagens de Wycliff, mas é exagero dizer que o primeiro tenha sido discípulo do inglês. As obras de Wycliff foram lidas por Huss quando trazidas por Jerônimo de Praga. Seu interesse pelos escritos de Wycliff se deu pelo fato de suas ideias serem próximas daquelas do reformador inglês. Por suas pregações, Huss foi excomungado pela Igreja e convocado para estar diante do Concílio de Constança. Acreditando que ali poderia ser ouvido e obter a proteção do imperador, o pregador partiu para Constança. Acabou condenado à fogueira como herege. A resposta do povo da Boêmia foi imediata. Tanto os nobres quanto os dirigentes da Universidade de Praga se negaram a reconhecer a autoridade do Concílio e acabaram por não obedecer aos decretos que ali foram votados. Mais uma vez, a escalada rumo à Reforma ganhava força, agora no que seria conhecido, no futuro, como Leste europeu.

Paralelamente, surgiram outros grupos clamando por uma mudança radical de rumos. Um exemplo foram os taboritas, radicais que apregoavam a proximidade do apocalipse e propunham o uso da espada para preparar a vinda de Cristo. Mais uma vez, o que se percebe na gênese de tais movimentos é a insatisfação com o modo de a Igreja agir, com suas doutrinas equivocadas, sua riqueza, sua política em busca de poder terreno e seu apreço pelo vil metal. O contexto da Europa parece ser um só em relação à Igreja. A relação do sacerdócio com o povo é de medo e exploração; e, nas suas relações com o Estado, política e poder eram as prioridades. O que pretendia cada movimento reformador era um conserto, um aparar de arestas no caminho que a Igreja estava trilhando, e não uma divisão na própria Igreja. Para alguns reis, o desejo de reformar a fé tinha, sim, forte teor político; mas, em outros, o que ardia era um desejo sincero de estruturação da fé cristã.

Esse cenário estabelecido na Europa não poderia ficar sem resposta. O ideal de renovação, justiça e redescoberta da genuína fé cristã, comum a todos os movimentos, nunca morreu com seus lideres. Ao contrário: tamanha força desencadeada não poderia ficar inerte. Foi ela que fez eclodir, séculos depois, a Reforma Protestante. Quando a Igreja acordou, já era tarde. Nem mesmo a violência da Contrarreforma poderia segurar o ímpeto da maior de todas as restaurações religiosas ocorridas no mundo.

 

ELDO FERREIRA DOS SANTOS
É pastor, professor e graduado em Teologia e Filosofia,
com pós-graduação em História.

 

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