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Futuro Duvidoso

Marcada pelo secularismo e sob os efeitos da pós-modernidade anticristã, Europa ressente-se de perda de identidade cultural e religiosa

17 DE agosto DE 2017

Por Carlos Fernandes

Berço da Reforma Protestante, a Europa é, hoje, uma pálida imagem da pujança espiritual de outrora, quando protagonizou grandes avivamentos e teve papel decisivo na evangelização mundial. Passado meio milênio desde o início do movimento reformista, a Europa contemporânea ressente-se dos efeitos do secularismo, do ateísmo e do assédio da cultura e da Academia sobre a fé cristã. Templos centenários são fechados por falta de fiéis – alguns passam a abrigar lojas, academias ou atividades nada santas, como casas noturnas e até bordéis – e há uma crise de vocações sacerdotais. Enquanto isso, denominações tradicionais, como as igrejas Anglicana, Presbiteriana e Metodista, debatem-se com questões antes inimagináveis, como a ordenação de clérigos homossexuais e a aceitação ao aborto e ao consumo de drogas.

A Basílica de São Pedro, em Roma: Cristianismo passa por momento delicado na Europa

Hoje, países que, nos séculos 16 e 17, serviram de berço à Reforma, como França, Alemanha, Suíça e Reino Unido, encontram-se em meio a acalorado debate acerca do valor e do papel da religião na sociedade. Ali, o que floresce neste século 21 é o ateísmo e a rejeição à fé cristã. Na terra de Martinho Lutero, 29% dos habitantes já se declaram ateus, enquanto que 34% dizem não seguir religião alguma. Já na vizinha França, os que não acreditam em Deus nem professam qualquer crença chegam a quase 50%. E na Escandinávia, apesar da tradição cristã que imprimiu uma cruz na bandeira de cada país da região, os índices de rejeição à fé são elevadíssimos, segundo a pesquisa Ateísmo: Taxas e padrões contemporâneos, do sociólogo norte-americano Phil Zuckerman. Cerca de 85% dos suecos não consideram a possibilidade da existência do Deus judaico-cristão e nem querem saber de pisar em um templo; e, na Noruega, dos aproximadamente 5,5 milhões de habitantes, 3,2 milhões se dizem ateus.

 

PÓS-CRISTIANISMO

As causas do fenômeno de esvaziamento do Cristianismo na Europa são muitas, e não têm apenas raízes religiosas. É claro que se deve levar em conta a crítica aos modelos eclesiásticos centenários, considerados engessados e na contramão das mudanças sociais. Afinal de contas, a Igreja Católica Apostólica Romana, cuja sede fica no coração do continente, ainda critica os métodos contraceptivos e adota posturas quase medievais em relação a divórcio e novas configurações familiares. Porém, o enriquecimento do continente no pós-Guerra, aliado à euforia inicial com a criação da União Europeia, em 1993, colaborou para jogar a religiosidade para escanteio. Paralelamente a isso, a herança filosófica e humanista do Velho Mundo tem sido revalorizada nestes tempos. Quase 150 anos depois de o filósofo alemão Friedrich Nietzsche haver decretado a “morte de Deus”, ateus radicais contemporâneos, como os britânicos Richard Dawkins e Christopher Hitchens, ajudam a consolidar a opinião, hoje francamente enraizada no europeu médio, de que, como dizia Marx, a religião é mesmo o ópio do povo.

Templo transformado em casa noturna na Holanda: pós-Cristianismo cresce junto ao ateísmo

Já há pensadores que falam em pós-Cristianismo – termo que expressa a ideia de que a fé cristã, na Europa ocidental, agoniza em praça pública. Ao mesmo tempo, conceitos como o de laicidade e laicismo são propositalmente confundidos e têm levado governos de nações democráticas a impor restrições legais à livre manifestação de crença. É o caso de França, Holanda e Dinamarca, onde legislações polêmicas restringem a exibição de cruzes e outros símbolos cristãos em lugares públicos. Já se nota, até mesmo, certo patrulhamento social ao uso pessoal de tais elementos. A Corte Europeia de Direitos Humanos chegou ao ponto de proibir o uso de crucifixos em escolas italianas, apesar do peso da tradição católica. O ideal já não parece ser o Estado laico, mas sim, o Estado ateu.

O jornalista Ron Boyd-MacMillan, autor do livro A fé que persevera, editado pela Missão Portas Abertas (entidade internacional que atua pela liberdade religiosa no mundo), diz que as elites políticas seculares tendem a tratar a religião em geral – e o Cristianismo, em particular – como elemento secundário na sociedade. “Esta é uma das fontes responsáveis pela falta de liberdade religiosa”, destaca o estudioso. Segundo MacMillan, que chama tais grupos de poder de “elites anticristãs”, essa cultura, que valoriza a liberdade pessoal absoluta e o materialismo, reprime cada vez mais a moralidade cristã que serviu de base à própria fundação da civilização ocidental.

O professor de Sociologia e estudos seculares do Pitzer College, da Califórnia, nos Estados Unidos, Phil Zuckerman, aponta que o crescimento de ateus é visível por todo o planeta – porém, é mais evidente na Europa, em face da tradição cristã de muitos séculos. “Há muito mais ateus no mundo hoje do que jamais houve, tanto em números absolutos quanto em porcentagem da humanidade”, explica. E há muito mais iceberg abaixo da tona. Em boa parte da Europa, o passado cristão tem sido posto em xeque com o crescimento das populações islâmicas. Fruto da imigração acelerada das últimas décadas, a chamada islamização da Europa já chega à segunda geração, o que aumenta o número de cidadãos com plena cidadania e profissão de fé muçulmana. De vinte anos para cá, o número de muçulmanos residindo nas nações mais desenvolvidas da Europa praticamente dobrou. Eles já são 4,2 milhões na Alemanha; 3,6 milhões na França; 3 milhões no Reino Unido; e 1,8 milhão na Itália. Há uma delicada equação social que não fecha: enquanto os países da região são pressionados para receber e aculturar os imigrantes oriundos das terras do Crescente, aumenta o sentimento de xenofobia. Levando-se em conta que alguns dos últimos atentados perpetrados em solo europeu foram levados a cabo por gente nascida ali mesmo, mas movida pelo extremismo de inspiração maometana, há muito a se lamentar pelo declínio da influência cristã.

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