BLOG

Mestre dos quadrinhos

Artista consagrado no gênero, Sergio Cariello usou todo o seu talento para fazer da Bíblia em Ação uma obra magnífica

24 DE maio DE 2017

Publicada nos Estados Unidos em 2010 pela editora David C. Cook, a Action Bible (Bíblia em Ação, lançada no Brasil pela GEOGRÁFICA) chamou a atenção não apenas pelo conteúdo, cuidadosamente adaptado para não fugir nem um milímetro da inspiração espiritual dos autores bíblicos. A obra, sucesso de vendas, destaca-se pela qualidade, riqueza de detalhes e estilo das ilustrações. Não poderia ser diferente: a Bíblia em Ação, que logo se tornaria uma referência no gênero história em quadrinhos (HQs), é fruto do trabalho de um expert, o brasileiro Sergio Cariello, artista premiado e requisitado pelos mais prestigiados produtores de HQs do mundo, como a Marvel e a DC Comics.

Dono de um estilo desenvolvido à custa de muito talento e preparo, o pernambucano Cariello, radicado nos EUA há quase 30 anos, vê o resultado do trabalho com grande satisfação. “Quando comecei minha carreira, fazer quadrinhos evangélicos não estava fora dos meus planos e sonhos, porque entendi que, além de trabalho, aquilo seria ainda melhor, por poder participar de algo com valores eternos”. Tendo no currículo trabalhos com heróis das HQs como Homem-Aranha, Demolidor, Batman, Super-Homem e Mulher Maravilha, o artista considera um privilégio dar forma artística a ninguém menos que Jesus Cristo. “Este projeto foi muito importante para mim. Representei o meu Senhor e Salvador como achei que deveria ser feito: cem por cento homem e cem por cento Deus.”

GEO – Como foi a reação do público e do mercado à Bíblia em Ação.
Sergio Cariello – Muito boa! O suficiente pra torná-la um best-seller. Muitos cristãos a compram, mas sei também de pessoas de outras crenças, inclusive budistas, que a apreciam. Até mesmo os ateus a compram. No meio artístico, ela também tem sido muito bem recebida. Todos parecem gostar, pelo que ouço falarem e pelos comentários que vejo publicados.

GEO – Explique como é o processo de produção de uma obra como a Bíblia em ação.
Sergio Cariello – O texto já vem pronto. A partir disso, eu faço rascunhos de cada página, no formato de 10 X 15cm, baseados no roteiro. Às vezes, quando achei necessário, fiz algumas modificações, sempre com permissão do editor e do diretor de arte. Uma vez que cada rascunho era aprovado, fiz o chamado lápis em papel maior, com 25 X 28 cm, e a arte finalização de cada página.

GEO – Como você definiria o estilo empregado nos quadrinhos da Bíblia em Ação?
Sergio Cariello – Sinceramente, não sei. Fiz o que me pareceu certo, do mesmo jeito que em cada trabalho que faço para outras editoras. Esse negócio de categorizar estilos é muito subjetivo, depende de como cada um vê o seu trabalho. Nem sempre concordo com o que os outros denominam de estilo.

GEO – Como foi o processo da escolha de seu trabalho pela Cook?
Sergio Cariello – O grupo de artes da Cook procurava alguém para refazer a Picture Bible, lançada nos anos 1970 e que, no Brasil, recebeu o nome de A Bíblia em Quadrinhos, lançada pela Editora Betânia. Quando viram um desenho meu mostrando Cristo carregando a cruz em um livro, eles me contataram. Isso foi em 2006.

GEO – A Bíblia em Quadrinhos teve muita influência sobre a Bíblia em Ação?
Sergio Cariello – Muita. Examinei tudo o que o desenhista Andre Le Blanc fez na versão anterior, refazendo do meu jeito.

GEO – Desde cedo, você demonstrou talento para o desenho. Fale sobre sua trajetória artística.
Sergio Cariello – Em 1975, criei meu primeiro personagem que foi publicado – Frederico, o detetive. Escrevi e desenhei tirinhas semanais que saíam no suplemento infantil do Diário de Pernambuco. Eu tinha apenas 11 anos e já via meu sonho – que acalentava desde os cinco anos de idade – acontecer, de ver meu trabalho publicado juntamente com outros profissionais conhecidos no mercado. Logo em seguida, o mesmo jornal publicava minhas primeiras caricaturas políticas na coluna de Paulo Craveiro. Trabalhei para o Diário até aos 14 anos e parei por um tempo, devido às distrações de todo adolescente. Em 1982, quando eu tinha 18 anos, vi uma propaganda da Joe Kubert School numa revista do Batman. Tive uma convicção muito grande de que aquela era a escola que deveria cursar para realizar meu sonho de ser quadrinista em tempo integral nos Estados Unidos. Comecei a juntar dinheiro e iniciei um curso de inglês no Recife, pagando minhas aulas com desenhos. Então, o diretor do ministério Palavra da Vida no Nordeste, George Theis, foi transferido para assumir o cargo na direção da entidade em Nova York. Foi um pastor holandês chamado Frans Schalkwijk, que acompanhava minha caminhada e sabia do meu desejo de ir para a Kubert, que escreveu para George, e ele me deu meia bolsa de estudos no Palavra da Vida de lá. Paguei o restante de custo da escola com caricaturas que fazia no Rodeo Day, época em que o acampamento abria suas portas para visitantes participarem de varias atividades, inclusive com um caubói montado a cavalo entretendo o publico. Nunca assisti ao espetáculo, pois ficava bastante ocupado a caricaturar tantos quantos queriam meus serviços… Foram milhares de caricaturas! Essa foi minha ponte para migrar para os Estados Unidos, onde cursei um ano e meio no Palavra da Vida, e logo após preenchi o formulário da Kubert School, sendo avaliado pelo próprio Joe Kubert, fundador da escola, por telefone.

GEO – E como você conseguiu desenvolver uma carreira de sucesso nos EUA, em meio a tantos profissionais qualificados e tanta concorrência?
Sergio Cariello – Durante meu treinamento, meu irmão, o Octávio Cariello, me recomendou a uma editora, a Caliber. Fiz meu primeiro trabalho a ser publicado na América do Norte, o Dagon (adaptado do HP Lovecraft por Steve Jones). Pelo fato de estar fazendo este trabalho, tive três alunos e um professor da escola trabalhando pra mim sendo eu ainda estudante – assim, fui isento de vários deveres de casa, por estar fazendo algo profissional. Depois de um ano e meio na Kubert, fui contratado pela Marvel Comics. Comecei como letrista fantasma (fazia correções de letrinhas das revistas, sem receber crédito) no escritório da Marvel. Mas, como estava ainda fazendo Dagon, os editores viram que eu poderia desenhar e me deram trabalhos como desenhista. Tive que pedir as contas para me tornar desenhista independente, como todo artista da Marvel, desenhando na minha própria casa.

GEO – Que personagens famosos você já desenhou?
Sergio Cariello – Desenhei o Homem-Aranha, o Demolidor, o Conan, os Avengers. Logo, a DC Comics me deu trabalho também, e desenhei Batman, Super-Homem, Mulher Maravilha, Arqueiro Verde, Azrael e outros. Por volta de 1996, retornei à Kubert como professor, ao mesmo tempo em que continuei como artista freelancer. Dei aula por sete anos, até que recebi um convite da Crossgen e me transferi para a Flórida. A Crossgen acabou falindo um ano após minha vinda, mas sempre permaneci ocupado como freelancer.

GEO – De que maneira você, como cristão, encarou esse trabalho de transformar, por assim dizer, a Palavra de Deus em quadrinhos?
Sergio Cariello – Eu sempre gostei de desenhar e apreciava histórias em quadrinhos desde muito novo. Então, quando conheci a versão brasileira da Bíblia em quadrinhos, amei. O detalhe é que, quando comecei minha carreira, fazer quadrinhos evangélicos não estava fora dos meus planos e sonhos, porque entendi que, além de trabalho, aquilo seria ainda melhor, por poder participar de algo com valores eternos. Quando o pessoal da Cook entrou em contato comigo, fiquei deslumbrado e extremamente empolgado com o desafio. Por isso, aceitei de imediato e falei para eles que aquilo seria um life time achievement, termo usado aqui nos Estados Unidos quando uma obra é muito digna de fazer na vida de alguém.

GEO – Quanto tempo você levou para elaborar todas as ilustrações da Bíblia em Ação?
Sergio Cariello – Três anos.

GEO – E qual foi a maior dificuldade que você encontrou nesse trabalho?
Sergio Cariello – Justamente o tempo. Eu estava fazendo o Lone Ranger [Cavaleiro Solitário], um trabalho que me demandava 22 páginas por mês, para uma outra editora (lápis e arte final). Além disso, havia um outro trabalho evangélico na minha mesa. Muitos cristãos sentem certos pudores com representações artísticas de Jesus Cristo – isso, porque ainda persistem, entre os evangélicos, receios em relação à idolatria etc. Na Bíblia em Ação, há centenas de representações artísticas de Jesus.

GEO – Falando como artista e cristão, o que você diria sobre isso?
Sergio Cariello – Tenho muitos desenhos de Jesus e muitas estátuas de vários personagens de quadrinhos. Ora, eu não idolatro meus desenhos e nem minhas estátuas, é claro. Cada um responda de acordo com sua consciência. A minha está limpa quanto a isso.

GEO – Na Bíblia em Ação, os desenhos de Jesus não fazem muitas concessões às clássicas representações de um Cristo com feições delicadas e modos comedidos. Essa, digamos, “humanização” da figura de Cristo foi orientada pela editora ou iniciativa sua?
Sergio Cariello – Representei o meu Senhor e Salvador como achei que deveria ser feito: cem por cento homem e cem por cento Deus. Não perguntei nada a ninguém sobre como deveria desenhá-lo. Fiz o que achei que seria correto para mim. Ora, um carpinteiro não é um homem delicado. Por outro lado, pelo fato de andar muitos quilômetros a pé em cada jornada, Jesus não poderia ser fisicamente fraco. Desde cedo, ele aprendeu a fazer tudo que um bom filho da época faria para colaborar no dia a dia da família. A editora simplesmente ia aprovando cada ilustração apresentada, e assim foi.

GEO – A Bíblia em Ação tem nítida influência dos quadrinhos de super-heróis, com expressões fortes e dramáticas, movimentos amplos e muita ação. Essa apropriação foi uma iniciativa deliberada?
Sergio Cariello – Bem, em todo novo trabalho que faço, incluo o que tenho aprendido nos anos de experiência em fazer quadrinhos. Apenas li o texto e fiz o que faço para contar uma história de forma clara, dinâmica e acreditável. Cada página é feita a partir do que o roteiro propõe – assim, nem toda página é calma, cheia de ação ou como as demais. Cada cena e cada momento determinam como a história deve ser contada na forma dos quadrinhos que sei fazer.

GEO – Vários personagens da Bíblia em Ação, como Sansão e Saul, representam as contradições que todo cristão enfrenta em sua vida – como pecado e perdão, erros e acertos etc. Além destes, que outros personagens carregam em si maior carga de dramaticidade, em sua opinião, e qual o papel que você quis lhes dar ao longo da narrativa?
Sergio Cariello – O bom quadrinista, em minha opinião, se torna cada personagem que ele desenha. Portanto, se desenho um fariseu, sou fariseu; eu procuro pensar e sentir como tal, tento me colocar em seu lugar, no desenrolar da narrativa, para que o desenho saia correto, passando a expressão e os sentimentos do personagem. Neste trabalho, eu me coloquei, por assim dizer, nos sapatos de cada um dos personagens que desenhei, sentindo a dor de Pedro, o pecado da prostituta, a fé do centurião e o poder de Cristo. Procurei imaginar como foram as dores que ele sentiu e até o desejo de se livrar da cruz.

GEO – A Bíblia em Ação mistura entretenimento e mensagem bíblica. É uma alquimia que dá certo, em sua opinião?
Sergio Cariello – Aparentemente, sim. A vendagem do livro comprova isso. Até Hollywood tem investido em produzir entretenimento e mensagem bíblica ao longo dos anos. As Escrituras estão repletas de material que enche a mente de imaginação. Acho que Deus fez de propósito [risos]. Quem não gosta de ouvir uma boa e interessante história verídica, cheia de personagens de vários tipos, vivida em locais diversos e com intrigas de todo tipo? É o livro da vida do homem no mundo, a história completa de Deus e de sua criação.

GEO – A Bíblia em Ação tem foco no público juvenil, mas certamente é uma obra que agrada a toda a família – até porque muitos pais e avós são fãs de quadrinhos. Esse lado, digamos, família, foi levado em conta no processo de produção do livro?
Sergio Cariello – Para dizer a verdade, não me lembro se foi. Apenas lembro que foi feito de uma maneira que pudesse ser atraente e aceitável às grandes massas, sem causar controvérsias.

GEO – Como assim, evitar controvérsias?
Sergio Cariello – Refiro-me a determinados cuidados, como cobrir a nudez de Adão e Eva e não glorificar carnificinas, por exemplo. Sabemos que o relato bíblico é repleto de coisas chocantes e mostra cenários de violência e sangue, coisas que seriam normais em um filme ou produto voltado exclusivamente para adultos.

GEO – Como foi sua trajetória na fé?
Sergio Cariello – Fui criado em um lar evangélico e frequentei a Escola Dominical na igreja Presbiteriana Boa Vista, em Recife (PE). Em 1979, dediquei minha vida a Cristo. Na juventude, estive em diversos acampamentos cristãos, como o da organização Palavra da Vida no Nordeste.

GEO – Hoje, você está vinculado a qual ministério?
Sergio Cariello – Hoje, estou vinculado a uma igreja americana não denominacional, perto de casa. Sou ministro de louvor, canto e toco violão. Também componho músicas que usamos nos cultos, durante o louvor, e de vez em quando, prego a Palavra. Aliás, sempre estive envolvido como líder de louvor, tanto em congregações brasileiras – como os dez anos que passei em Nova Jersey – como em igrejas americanas.

 

Compartilhe