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O homem que revolucionou a fé

Como o monge alemão Martinho Lutero iniciou a segunda maior corrente do cristianismo global

5 DE outubro DE 2017

Por Carlos Fernandes

Quando afixou suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, em outubro de 1517, Martinho Lutero não poderia supor que seu protesto contra os rumos que a igreja tomara fosse se desdobrar em transformações tão profundas. Agora, às vésperas do 5º centenário do movimento que entrou para a história como a Reforma Protestante, o mundo sabe que o pensamento de Lutero motivou uma revolução dentro da cristandade e influencia a religiosidade de quase 1 bilhão de pessoas até hoje, passados 470 anos de sua morte. O clamor da Reforma Protestante por austeridade e fidelidade aos preceitos bíblicos soa mais atual do que nunca. É o legado de um homem que decidiu assumir um compromisso com sua consciência, mesmo que isso implicasse romper com as próprias convicções e colocar sua vida em risco.

Martinho Lutero nasceu em Eisleben, Alemanha, em 10 de novembro de 1483. Filho de camponeses cristãos – seu nome era uma homenagem a São Martinho, bastante popular na Alemanha da época –, foi submetido a uma disciplina rígida. Era um tempo em que os hereges – aqueles que ousavam questionar os rígidos dogmas eclesiásticos e as determinações papais – ardiam nas fogueiras. O perdão de Deus era alcançado por meio da compra de indulgências, uma espécie de salvo-conduto monetário para o Reino dos Céus. Dos púlpitos, sacerdotes, falando em latim, advertiam o povo sobre o caráter vingativo de um Deus castigador e asseguravam que a salvação só era possível por meio de penitências e boas obras. O menino Lutero aprendeu, entre outras coisas, a orar aos santos, praticar a caridade e reverenciar o papa – e, sobretudo, a Igreja, aquela grande e misteriosa instituição que erguia catedrais e não admitia questionamentos.
Cedo, aos cinco anos, Lutero começou a estudar a língua latina em uma escola local. Aos 12, foi aluno do ateneu de uma irmandade franciscana em Magdeburgo e graduou- se em Filosofia. Aprendeu, ainda, hebraico e grego, conhecimento que lhe seria fundamental mais adiante. Já aos 22 anos, era mestre em Artes pela Universidade de Erfurt. Suas fortes inclinações religiosas, porém, acenavam-lhe com o sacerdócio. Pouco tempo após iniciar seus estudos de Direito, em 1505, Lutero resolveu tornar-se monge e entrou no Mosteiro Agostiniano de Erfurt. A sua ordenação foi em 1507. Em seguida, deixou o Mosteiro para ensinar Filosofia na Universidade de Wittenberg.

SEDE ESPIRITUAL

A vida sacerdotal de Lutero poderia ter sido igual à de tantos outros clérigos de seu tempo, se não acabasse profundamente marcada pela leitura da Bíblia. Ele descobriu o livro sagrado na biblioteca do convento dos agostinianos, onde vivia. Até então, seu conhecimento das Escrituras resumia-se a fragmentos proferidos nas igrejas, insuficientes para aplacar sua sede espiritual. O resultado disso é que, em 1511, em sua primeira visita a Roma, começou a achar que nada do que a Igreja e a tradição religiosa ofereciam como caminho para Deus era eficaz. As relíquias veneradas; os lugares sagrados; a superstição que caracterizava a crença da gente simples; o poder político e econômico dos líderes religiosos… Isso, sem falar nas indulgências, pagamento em dinheiro ou bens que o fiel fazia à Igreja a fim de, supostamente, diminuir a pena do purgatório (doutrina antibíblica que prevê um estado intermediário entre o céu e o inferno). Tudo parecia-lhe nada mais do que tentativas fracassadas de alcançar paz interior e comunhão com Deus. “Será que tudo isto é verdade?”, questionava-se o jovem Monge.

Dono de uma inteligência aguda e movido por grande devoção, Lutero conquistara respeito e admiração, tanto como sacerdote, quanto como professor. Seus estudos da Bíblia tornaram-se uma obsessão em busca de respostas. Foi então que encontrou a passagem da epístola de Paulo aos Romanos que incendiou sua alma: “O justo viverá pela fé”, sentencia a carta do apóstolo. A partir daí, todos os seus sermões e aulas passaram a conter ensinamentos da Palavra de Deus aplicados à vida das pessoas. Lutero pregava a nova verdade que descobrira, a da justificação pela fé. Seu público crescia cada vez mais, atraído pelo monge que ousava dizer que a salvação não podia ser obtida por obras ou pela compra do perdão de Deus, mas somente pela graça divina.

A distância entre a realidade da Igreja e os princípios bíblicos que descobrira revoltava Lutero a tal ponto que ele resolveu protestar publicamente contra os rumos que Roma vinha imprimindo à fé cristã. Era costume, na época, afixar opiniões para debate em locais públicos, a fim de que os interessados tomassem conhecimento do assunto. Em 31 de outubro de 1517, a Igreja do Castelo de Wittenberg amanheceu com as 95 teses pregadas à sua porta. Certamente, nada do que já fora publicado poderia causar maior polêmica que os escritos de Lutero. Suas teses foram rapidamente divulgadas por toda a Alemanha e caíram como uma bomba em Roma. Nelas, Martinho Lutero afirmava a nulidade das indulgências para perdoar pecados e livrar almas da condenação; contestava o poder da Igreja como mediadora entre os fiéis e Deus; e assegurava que todo fiel arrependido era remido de seus pecados através da fé em Cristo. Mais ainda: defendia a livre interpretação das Escrituras pelo cristão – prática que, em princípio, demolia a exclusividade eclesiástica na vida devocional do cristão.

Era o início da Reforma Protestante, o movimento que iria causar a maior cisão da história do Cristianismo. Todavia, Lutero pagou caro por desafiar os poderes da Igreja. Logo, uma cópia das teses chegou às mãos do arcebispo local, que as enviou a Roma. No ano seguinte, Martinho Lutero foi convocado à sede da igreja, a fim de responder à acusação de heresia. Recusando-se a ir, foi entrevistado pelo cardeal Cajetano e manteve as suas posições. Em 1519, Lutero participou de um debate em Leipzig com o dominicano João Eck, no qual defendeu o pré-reformador João Hus e afirmou, para espanto geral, que os concílios, e mesmo os papas, podiam errar, desafiando o dogma da infalibilidade.

Em 1520, a bula Exsurge Domine (“Levanta-se, Senhor”), assinada pelo papa Leão X, deu-lhe 60 dias para se retratar. Caso contrário, seria excomungado. Como resposta, seus alunos e outros professores da Universidade queimaram a bula e um exemplar da lei canônica em praça pública. Foi o começo da reação popular ao autoritarismo eclesiástico. Naquele mesmo ano, Lutero escreveria várias obras importantes, especialmente três: À nobreza cristã da nação alemã, O cativeiro babilônico da Igreja e A liberdade do cristão. Isso lhe deu notoriedade imediata em toda a Europa e aumentou ainda mais sua popularidade na Alemanha. No início de 1521, foi publicada a bula de excomunhão, Decet Pontificem Romanum. Lutero comparece, então, a uma reunião do Parlamento, a Dieta de Worms, onde reafirmou as suas ideias. Foi promulgado contra ele, então, o Edito de Worms, que o levou a refugiar-se no castelo de Wartburgo, sob a proteção do príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio. Ali, Lutero começou a produzir uma obra-prima da literatura alemã, a sua tradução das Escrituras.

ELO COMUM

Por essa época, o ex-monge já não era apenas um religioso idealista, mas tornara-se um líder nacional. O movimento que iniciara espalhou-se por toda a Alemanha, dando espaço a um grande avivamento espiritual. Como o povo passou a gozar de mais liberdade para buscar a Deus, surgiram várias comunidades dirigidas por leigos. A Bíblia, traduzida por Lutero para o alemão, tornou-se acessível aos fiéis. “Se permanecerdes com as Escrituras, sereis vitoriosos”, exortava-os o reformador. Iniciou-se um grande movimento em prol da formação de uma igreja nacional, livre do domínio romano. Mas a liberdade religiosa, de fato, só seria concedida em 1555, quando o imperador Fernando reconheceu o protestantismo como um movimento legal e deu autonomia para que cada príncipe decidisse qual seria a religião de seu território.

Martinho Lutero morreu no dia 18 de fevereiro de 1546, na cidade de Eisleben, aos 62 anos. Suas ideias, contudo, permaneceram. Apesar da oposição e ameaças da Inquisição– movimento que ganhou força na primeira metade do século 16 e aterrorizou a Europa com suas práticas de exceção e métodos violentos –, sua obra espalhou-se pelo Velho Mundo. O movimento reformista cresceu excepcionalmente em nações como Inglaterra, França, Escócia, Países Baixos e Escandinávia. Séculos mais tarde, missionários oriundos desses países levaram o protestantismo à América, à África, à Ásia e “até aos confins da terra”, conforme a recomendação do próprio Jesus. As sementes da Igreja Evangélica mundial estavam lançadas.

Neste ano, quando se completam 500 anos da obra do reformador, o contexto teológico e a influência de seu legado continuam fundamentais. Os conceitos principais da obra luterana, como justificação pela fé e pela graça de Deus, prevalência das Escrituras Sagradas sobre a tradição e o sacerdócio universal dos crentes, são reconhecidos por todas as denominações protestantes em sua própria tradição histórica – inclusive, e em larga medida, pelo pentecostalismo. O legado de Martinho Lutero é, por isso, o elo de fé comum entre milhões de crentes no mundo inteiro.

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